Francisco Leal

SONOPLASTIA / DESENHO DE SOM

Introdução

A propósito das epopeias de Homero, o estilo do orador participará de ambos os processos, a imitação e a narração simples (...) Trovões, o ruído do vento, da saraiva, dos eixos e roldanas, trombetas, flautas e siringes, e os sons de todos os instrumentos, e ainda os ruídos dos cães, das ovelhas e das aves. Todo o discurso deste homem será feito pelo meio de imitação, com vozes e gestos, e conterá pouca narração.
In “A REPÚBLICA” de Platão, Livro III

Desde a Grécia antiga até meados do séc. XX (anos 40) a necessidade da representação de determinados sons, ditos efeitos sonoros, considerados como informações essenciais de uma peça, e provavelmente também espectaculares na experiência aural para o público, implicava a imitação de sons naturais, como o vento, a trovoada ou a chuva, através de meios artificiais, máquinas de maior ou menor complexidade, ou simples placas de aço e outros objectos que eram manipulados fora de cena durante o espectáculo.

Com as invenções que possibilitaram a captação e a fixação de som em registos mecânicos e mais tarde magnéticos esses sons passaram a ser representados através de gravações que reproduziam esses acontecimentos.

A implementação da telefonia traz novas formas de comunicação surgindo o teatro radiofónico e os folhetins, novelas radiofónicas, fenómenos de sucesso que eram escutados e seguidos atentamente, numa época em que os actores eram reconhecidos na rua pela voz. À recriação de sons da natureza, de animais e objectos, de acções e movimentos, elementos que em teatro radiofónico têm que ser ilustrados ou aludidos sonoramente, inicialmente designava-se composição radiofónica. Incluía ainda a gravação e montagem de diálogos e a selecção, a gravação e alinhamento de música com uma função dramatúrgica na acção ou narração.

O sonorizador, auxiliado por um contra-regra que produzia efeitos sonoros em directo, tais como a abertura de uma porta à chave e o consequente fechamento, passos caminhando em pisos de diferentes superfícies, ou o galope de um cavalo efectuado com casca de coco percutida, recorrendo a um manancial de instrumentos e artefactos em que a imaginação era o limite para invenção da replicação artesanal de sons, ou ainda auxiliado por um operador que manipulava os discos de efeitos sonoros de 78 RPM, controlava a mistura dos vários elementos sonoros com a voz gravada.

Na década de 60 para o desempenho dessa função começa a surgir uma nova designação - a sonoplastia. Sendo um termo exclusivo da língua portuguesa está intimamente relacionada com a manipulação de registos de sonoros, e abrange todas as formas sonoras, música, ruídos e fala.

A sua posterior associação à televisão e ao cinema documental toma subtis variações e formas, recorrendo aí com maior incidência à selecção de músicas (banda sonora não original!) para o acompanhamento de sequências de imagem, ou como música de fundo de uma narração, alterando o desempenho da música, já não com uma função dramatúrgica de intenções, mas como uma intenção meramente decorativa e acessória, ou no caso de documentários institucionais com a intenção de criar a ideia de dinamismo e eficiência.

Esta designação terá surgido numa época anterior à inclusão, em Portugal, da tecnologia e potencialidades da música electrónica, nomeadamente o sintetizador, fazendo então um limitado uso do processamento de som. A manipulação de som era reduzida às técnicas base de registo, de montagem através do corte e colagem de fita magnética em bobines – a edição, e de mistura dos vários elementos sonoros com diferentes ajustes de volumes.

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SONOPLASTIA:
Reconstituição artificial, no teatro, cinema, rádio, televisão, etc, dos ruídos que acompanham a acção.

in “dicionário enciclopédico”,
koogan – larousse – selecções