Francisco Leal

SONOPLASTIA / DESENHO DE SOM

Turismo Infinito

timeout

 

Teatro D. Maria II
 
Representar Fernando Pessoa e ser convincente é uma carga de trabalho. Como se costuma dizer: é obra. Não propriamente pela razão óbvia do poeta não escrever dramaturgia. Mais por nele conviver uma bizarra combinação de personalidades que, embora complementares, têm tendência a viver autonomamente – como Bernardo Soares e Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis – e por hábito contradizerem-se. Contudo, diz-se que quando o homem sonha a obra acontece. É só por vezes, mas em Turismo Infinito aconteceu.

O texto de António M. Feijó ignora o contributo de Reis. Apropria-se antes de poemas do visionário Álvaro de Campos, do bucólico Caeiro, de Bernardo Soares, o guarda-livros, e de Fernando Pessoa (1888-1935) propriamente dito, além de três das cartas de Ofélia Queirós, construindo não uma história nem um conjunto de diálogos, menos ainda um recital de poesia, mas antes uma visão – a que o cenário de Manuel Aires Mateus, a sonoplastia de Francisco Leal e a encenação de Ricardo Pais dão forma e dimensão plástica, deixando para a interpretação de João Reis, Luís Araújo, José Eduardo Silva, Pedro Almendra e Emília Silvestre a tarefa de acrescentar densidade dramática.

 

turismoinfinito


Construir um texto dramatúrgico a partir de poemas de Fernando Pessoa e encená-lo é tarefa complexa e em aparência tão atemorizadora que praticamente não se faz. É um universo demasiado denso. Esquizofrénico, mesmo. Um mundo aberto a leituras múltiplas, muitas vezes distintas, às vezes até contraditórias, que se dá mal com o palco e que, pelo menos, necessita de uma abordagem que interprete o paradoxo pessoano em linguagem cénica, isto é, que seja capaz de traduzir e comunicar o fervilhar ardente da obra. Como o arrojo não faz o género português, é compreensível que o poeta não habite os palcos com frequência.

Foi preciso bastante arrojo aliás, para, vão quase duas décadas, Ricardo Pais encenar pela primeira vez o poeta em Fausto. Fernando. Fragmentos. Ao contrário do que agora se propôs, ao abordar a multiplicidade do trabalho do autor, nesse espectáculo organizavam-se, sob o pretexto da metáfora radiofónica, textos escritos ao longo do tempo apenas em torno do tema faustiano.

Ao trabalho unificador de outrora opõe-se, hoje, a fragmentação como forma de melhor identificar e transmitir a beleza, reconhecendo nos estados de espírito do homem muitas das razões da imaginação transbordante do poeta. É, por isso, particularmente estimulante que o que então era desmesura se transforme, em Turismo Infinito – como quem olha outro lado de um espelho multifacetado – numa espécie de minimalismo insinuante e perturbador que recusa a tradicional contracena e valoriza acima de tudo a palavra.

Rui Monteiro