Francisco Leal

SONOPLASTIA / DESENHO DE SOM

Manual de Leitura de Um Hamlet a Mais

Francisco Leal, Desenho de som

por Pedro Sobrado

Francisco Leal é talvez o mais secreto elemento do elenco de um Hamlet a mais. Por secreto não queremos dizer “desconhecido” nem sequer sugerir que se trata de alguém cuja revelação agora se anuncia: com 37 anos, este lisboeta exilado efectuou já um vasto percurso ao nível da sonoplastia e do desenho de som e completará no próximo mês de Setembro 10 anos (10!) enquanto responsável pelo Departamento de Som do TNSJ. Isto pondo já de parte a extensa e heteróclita lista de criadores com quem tem trabalhado, e onde podemos encontrar nomes como os dos encenadores José Pedro Gomes, Nuno Carinhas, Luís Miguel Cintra, Ricardo Pais, Giorgio Barberio Corsetti, José Wallenstein e Carlos J. Pessoa, e os dos músicos Mário Laginha, Nuno Rebelo e Vítor Rua. Referimo-nos antes ao dom da invisibilidade sonora que é o traço distintivo do seu trabalho enquanto criador. Quem o conhece sabe que cultiva a discrição e a sobriedade mesmo – ou principalmente! – durante o convulso processo de construção de um espectáculo.

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“Um Hamlet a Mais” – Ricardo Pais, 2003 © João Tuna / TNSJ

O trabalho que Francisco Leal desenvolve pode ser definido como um ofício de ourives, em que o rigor, a minúcia e essa faculdade tão rara que é a atenção adquirem contornos de imperativos categóricos. Paradoxalmente, ou talvez não, foi um défice de capacidade de concentração que ditou a sua renúncia a um percurso musical, depois de na infância e adolescência ter frequentado a Escola de Amadores de Música e, mais tarde, a escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Para Francisco Leal afigurava-se incompatível concentrar-se na execução instrumental de uma composição e, em simultâneo, dedicar uma atenção absoluta à escuta. Abandonou a primeira em favor da segunda. «Aquele que se esforça por escutar não vê», sentenciou Walter Benjamin.

Em meados dos anos 80, por altura do boom das rádios pirata, trabalha como técnico de som na «falecida RUT (Rádio Universitária do Tejo)», onde também conduzirá um programa dedicado ao jazz e aos blues. Nesse mesmo período, frequenta cursos de produção de som, chegando inclusive a dar aulas no IFICT (Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral). 1988 e 1989 são anos decisivos: inicia a sua actividade em teatro e entra no Angel Studio, onde adquire novos conhecimentos ao nível da captação e gravação de som, recebendo a alcunha “o sonoplástico” por causa do seu crescente interesse pela experiência teatral. É, de facto, ao nível da sonoplastia que desenvolve alguns dos seus trabalhos mais curiosos. Francisco Leal recorda particularmente Inox Take 5, espectáculo de 1993 encenado por José Pedro Gomes, mas destacaria muitos outros, como O Grande Teatro do Mundo, espectáculo encenado por Nuno Carinhas (TNSJ, 1996) em que a cada personagem correspondia um determinado tipo de som ou música.

Todavia, o conceito que nos últimos anos, e particularmente a partir de 97, informa e dá conta da natureza do seu trabalho criativo no domínio das artes do espectáculo é o de “desenho de som”. Trata-se de uma noção que, nas palavras de Francisco Leal, envolve o estabelecimento de um «conceito global de som ou envolvimento sonoro para um determinado espectáculo» – uma sintaxe sonora decorrente da encenação e que envolve variáveis como a espacialização do som na sala, o reforço das vozes com microfones emissores ou a sua explícita amplificação, e a criteriosa gestão da banda sonora no espaço cénico e no tempo da acção.

A primeira vez que ousa qualificar a sua participação numa produção teatral como “desenho de som” acontece em 1991, curiosamente com um espectáculo apresentado ao ar livre: Nocturnos III, concebido por Nuno Artur Silva, no Jardim Botânico de Lisboa, com música de Nuno Rebelo. Mas será mais tarde, em espectáculos como As Lições e Noite de Reis (encenações de Ricardo Pais em 1998), que o desenho de som de Francisco Leal atingirá um nível de investimento, sofisticação e performatividade assinalável: «Em As Lições havia uma grande dinâmica musical e sonora, um imenso trabalho de espacialização, mas também coisas muito subtis».

É precisamente As Lições – espectáculo que configurava, do ponto de vista sonoro, um festim de artifícios – que Francisco Leal invoca quando fala de um Hamlet a mais: não tanto pelo número de transgressões sonoras, mas por se assumir o lado explicitamente performativo do som e da música, parceiros de corpo inteiro da representação. «É um espectáculo complexo, sobretudo por causa do recurso aos microfones de mão, com dinâmicas muito diferentes e em que a estratégia de reforço de som rivaliza com a explícita amplificação das vozes.» As frentes de combate são agora três: a produção vocal dos actores, a música que Vítor Rua interpreta ao vivo e a música pré-gravada que fornece bases e texturas sonoras: «A minha missão consiste em revitalizar os acontecimentos sonoros através do engenho técnico: captar e reproduzir, ampliar e remoldar esses estímulos, de forma a potenciar a auralidade do espectáculo»